terça-feira, 4 de maio de 2010

O ato de desenhar


Uma coisa é incontestável: quando desenhamos estamos sim dando forma aos nossos pensamentos visuais, de modo que cada desenho posto no papel é uma representação da realidade. Quando desenhamos estamos materializando idéias e sentimentos. Estamos transmitindo conceitos e valores, posto que o desenho seja um excelente meio de comunicação.
Desenho é a expressão dos sentimentos e enquanto arte-educadores precisamos ser sensíveis a isso. Aliás, sensibilidade é requisito fundamental neste processo de criação, pois é necessário captar elementos da realidade e transmiti-los através de imagens e isto muitas vezes não é fácil. Talvez esta seja uma das maiores dificuldades de quem tenta transmitir idéias através de desenhos. Desenvolver a sensibilidade não é fácil, porém é essencial para quem faz do desenho a arte da comunicação. Por este motivo é de fundamental importância que o arte-educador reconheça em si próprio a capacidade de exercer o ato criativo de forma natural, pois o arte-educador que vive e respira a linguagem gráfica dificilmente cometerá erros grosseiros na interpretação de um desenho realizado por algum aluno.
Certamente que a disciplina História das artes visuais, para a qual produzi o presente trabalho, através de suas atividade complexas, não teve como objetivo principal formar exímios desenhistas, mas estimular a formulação de novos conceitos básicos, fornecer técnicas de desenho, pintura, sombreamento, elementos lineares, composição de cores, estilos e formas, que com toda certeza servirão de base para nossa formação profissional.
De alguma forma uma semente foi plantada. Alguns a cultivarão e aperfeiçoarão as técnicas apreendidas, outros internalizarão os conceitos e serão excelentes leitores de imagens e de obras de arte como um todo.
Quando damos forma a algo estamos atribuindo-lhe um significado, estamos reformulando e reinterpretando conceitos. Desenhar é basicamente criar, partindo de algo que a mente humana restabeleceu de forma critica. Desta forma, quando desenhamos, além de expressar o que pensamos, estamos pensando formas, pois usamos nossa percepção e nossa memória visual para dar formas, e de certa maneira somos nós mesmos o ponto de referência de todas as nossas criações. Estas formas seriam nossas reflexões sobre o mundo, sobre nossos medos, angústias, vontades, sensações e anseios.
Neste sentido, o ‘dar forma’ vai além de criar ou meramente modelar algo. Dar forma é expor para o mundo externo a beleza ou a complexidade do mundo interno, do ‘eu’ interior.
Acredito que todo indivíduo desenhista, pintor, autor, ao compor uma obra incorpora os elementos de seu meio social e cultural às suas imagens, pois se o desenho é a representação gráfica da realidade, logo o ambiente cultural em que vivemos influencia diretamente na composição de nossos desenhos e imagens.
Nosso contexto social, nossas raízes culturais tornam-se a essência do nosso trabalho, a base de nossas criações.
Segundo Edith Derdyck é fundamental que o arte-educador reconheça em si a capacidade de exercer o ato criativo de uma forma tão natural quanto comer, dormir e sonhar, pois um ser humano socialmente produtivo precisa desenvolver esta potencialidade, que é útil tanto na vida pessoal quanto profissional.
O ato criativo auxilia na resolução de problemas cotidianos, além de desenvolver o equilíbrio e o controle da mente, características essas essenciais para um educador, independente da sua área de atuação.
Particularmente, ao exercer o ato criativo, com certeza sou influenciada pelo meio social em que vivo, pelas relações subjetivas, interpessoais, pela ligação com o meio cultural, etc.
Certamente, é inevitável que os sentimentos influenciem nossos desenhos, pois de alguma forma, o desenho é parte de nós, é uma metade que se liberta, que se desprende de nosso interior e se faz ser ouvida. Desenho é um pouco da alma da gente.
Não há como não nos envolvermos integralmente em nossas atividades criativas. Não há como separar o lado emocional do processo criativo. Uma coisa está intimamente ligada à outra.
A vivência da linguagem gráfica durante este período foi profundamente enriquecedora. Ter contato com obras de pintores renomados e ainda ter a honra de interferir nelas foi uma experiência de pura reflexão e busca pela própria essência, pela própria identidade.
Analisar uma obra de arte trás a tona sentimentos e sensações que nós próprios desconhecemos. E ao interferir nelas graficamente e sentimentalmente falando, acabamos colocando elementos da nossa própria sensibilidade, acabamos sendo influenciados por esses sentimentos que estas obras nos despertam e além de interferir, acabamos por fazer composições bem pessoais, ocasionadas pelas lembranças adormecidas que elas trazem a tona.
Nossos trabalhos, nossas composições artísticas em geral passam pela interdisciplinaridade entre arte e outras áreas do conhecimento, pois uma obra é um conjunto de muitas coisas, de muitos acontecimentos e fatos. São influenciadas inclusive pelo momento histórico em que vivemos, deste modo há sim uma enorme conexão entre a arte e nossas convicções políticas, sociais e culturais. Além de discutir a arte pela arte, sua estética, composições e formas, uma obra ou um desenho podem desencadear uma serie de discussões inerentes ao tema, além das intenções do autor.
O interessante da arte é isto. Justamente unir várias áreas do conhecimento humano e incitar reflexões.
Particularmente, ao exercer o ato criativo, tento discutir a realidade e buscar novas possibilidades de percebê-la, de senti-la, de refleti-la.

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