sexta-feira, 7 de maio de 2010

Análise da peça Medeia


Medeia é uma peça teatral do gênero Tragédia, escrita por Eurípides, a qual foi apresentada em público pela primeira vez em 431 a.C. e não foi vista com bons olhos pela sociedade grega da época.
A tragédia Medeia é basicamente uma história de amor, entre tantas que existe, mas com um diferencial inigualável que reúne em um mesmo contexto amor e ódio, conquista e humilhação, vingança e tragédia. Elementos que tornam a trama e seus personagens tão intensos e tão humanos.
A personagem que dá título à trama, princesa Medeia, é uma feiticeira cheia de astúcia e sagacidade que usa seus poderes de magia para ajudar seu amado Jasão a atingir os objetivos aos quais era obstinado.
Jasão almejava recuperar o trono de seu pai e que foi tomado por seu tio Pélias. Jasão tinha como missão encontrar o velo de ouro. Arrebatada pelo amor que sentia, Medeia não mediu nenhuma conseqüência e não teve escrúpulo algum ao tomar atitudes com requintes de perversidade e feitiçaria, com o único intuito de ajudar e fugir com seu amor para longe dos olhos de seu pai.
Mas se Medeia pudesse imaginar o destino insólito que a aguardava, talvez tivesse ponderado em abandonar sua pátria e sua família para viver em uma terra estranha ao lado de Jasão.
A história toma outro rumo após anos de vida em comum com Jasão e dois filhos fruto dessa união.
Medeia deu cabo até mesmo da vida do pai de Jasão, usando seus conhecimentos como feiticeira e seu poder de influenciar pessoas. Na verdade ela não o fez com suas próprias mãos, mas foi ardilosa ao fazer o rei morrer pelas mãos de suas próprias filhas.
Após esse fato bizarro, Medeia, Jasão e os filhos foram expulsos da Grécia, indo viver exilados na cidade de Corinto.
Medeia então sofre o maior e mais terrível golpe que poderia viver uma mulher naquela época. Ela foi traída por Jasão, que a abandonou para casar-se com a filha do rei Creonte, que se chamava Glauce. A partir de então, Medeia passa a viver amargurada e reclusa, tamanha a humilhação publica pela qual o marido a fez passar. Isto para as mulheres da época era morrer em vida, pois elas somente tinham algum valor se fossem casadas, ainda que mal casadas.
Desse ponto em diante, Medeia que já não era aceita pela sociedade, por ser uma mulher que não seguia os princípios de sua época e por ser subversiva, passou então a sofrer com o preconceito e com as injurias daquele povo.
Mas embora sofrendo e se lamuriando terrivelmente, Medeia não se fez de rogada, jurou vingança e foi até as ultimas consequências para cumprir o que prometera.
Medeia precisava atingir Jasão de alguma forma, mas apenas a morte não seria suficiente, ela queria que Jasão pagasse pela sua dor. O primeiro golpe foi matar a noiva envenenada as vésperas do casamento. O segundo golpe e mais macabro de todos foi matar os próprios filhos. Nesse ponto, porém, Medeia se confronta com seus próprios sentimentos. Ela vive às voltas com a angustia da vingança e o amor que sentia pelos filhos. Mas ela era decidida e não se importava em sentir dor intensa, desde que seu propósito de vingança fosse cumprido.
Apesar de a trama envolver sentimentos e características tão peculiares ao ser humano, a peça também tem como pano de fundo a situação da mulher na Grécia antiga e o poder que o homem exercia sobre ela. A peça é um questionamento a essa posição de submissão e anulação que sofria a mulher. Um grito de socorro e liberdade aqui representado na insubordinação e altivez de Medeia.
A personagem era marcada por um intenso sofrimento e indignação por ter sido largada por Jasão, mas nesse sofrimento estão embutidos os problemas de um tempo em que predominava a exclusão da mulher. Neste contexto, tão astuciosamente Eurípides cria Medeia. Uma mulher terrivelmente fascinante e a frente do seu tempo.
As mulheres gregas viviam num regime rigoroso de limitações e a personagem Medeia era livre de pudores e se recusava a seguir os mesmos padrões sociais que todos julgavam correto para uma mulher.
O episódio em que Medeia mata os filhos, mostra um momento de crueldade intensa, mas também nos leva a refletir se esse ato impiedoso é mesmo um ato de vingança, de ódio, ou se simplesmente Medeia quer privar os filhos da vergonha de ver sua mãe subjugada, amargurada e derrotada, ou mesmo morta em conseqüência de seus atos.
Medeia por acaso não estaria querendo poupar os filhos de verem a sua desgraça? Ou querendo poupar até mesmo a desgraça dos filhos?
Poderia haver certa nobreza nesse ato final de Medeia, uma tentativa de proteger os filhos de represálias. Ironicamente, quase um ato de amor, muito mais do que por vingança ao marido infiel. Em se tratando de Medeia, suas demonstrações de amor e afeto não poderiam ser mais imprevisíveis e questionáveis.
Em suma, a saga de Medeia representa em sua essência a busca pela liberdade e pela justiça que todos temos dentro de nós. Pelos direitos que todos julgamos possuir, seja por algo ou por alguém. Quem nunca se julgou proprietário de alguém? Quem nunca agiu irracionalmente? Quem nunca jurou vingança? Quem nunca viveu conflituosamente com dois sentimentos opostos?
A lição que devemos tirar dessa historia? A resposta a essa pergunta é relativa e tão conflituosa quanto à saga de Medeia. O que vale mesmo é ouvir a voz do coração, sem nunca perder a racionalidade.
No fundo há uma Medeia dentro de cada um de nós.

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